domingo, 24 de outubro de 2010

Exchange

The very first time we met
You gave me a long glance
Three frozen seconds in air
Like a silent, calm dance


And then you gave me your number
The perfect key to a future treasure
As days passed by, you kept giving me gifts
But those i cannot measure


You gave me your touch
You gave me so much
Your comprehension
Hot coffees and sweet teas


And now I wanna give you this
My song, my rhythm
I wanna give you me


So from now on
that's how it's gonna be
A true exchange between you and me
And it's all arranged
I'll be yours, you'll be mine
we are truly exchanged and it feels so fine.




JG


(Razão do texto: durante a noite me veio uma palavra (o título), no caminho de volta pra casa me veio uma idéia (a última estrofe) e depois disso baixou uma cafonice à la jason m'raz. E nem tenho vergonha disso)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Peças e pessoas

O primeiro quebra-cabeça que montei tinha 500 peças e era a foto de um cavalo em um campo de flores amarelas. Claro que não o concluí sozinho, afinal ainda era um novato naquela arte cheia de manhas que você vai aprendendo aos poucos. Minha mãe montou comigo, sobre um pedaço de papelão que depois encapamos com "contact" e penduramos na parede. Depois daquele cavalo, nunca mais parei. Quando queriam me alegrar, os parentes me davam quebra-cabeças de presente. Acabei pegando os vícios e as manhas, que, entre tantas, as principais para manter a sobrevivência mental durante a peleja das tantas peças miúdas eram: 1) sempre separe as peças azuis que formam o céu da paisagem e 2) nunca compre um quebra cabeça com muito céu. Assim, perdi a conta de quantas peças já encaixei, quanto tempo passei decifrando formatos e quantas figuras montei e esqueci depois. O cavalo encapado está hoje em cima de algum armário. Empoeirando.

"Afinal, qual a graça de um quebra-cabeça já montado?", era o que eu pensava. O legal é tentar fazer igualzinho a foto na caixa do brinquedo - apesar de a Grow sempre deixar explícito o aviso não-se-iluda de que a imagem era "meramente ilustrativa". Mas eu queria fazer igual: tão colorida, tão detalhada, tão perfeita quanto. Olhava todas aquelas peças e já visualizava o quadro lindo que eu me orgulharia em montar (tolinho...). No final nunca era igual à imagem "meramente ilustrativa" da capa. Os traços das peças ficavam evidentes ou a cor não era tão viva. Grande drama com direito a esperneios de filho caçula era quando faltava uma peça, afinal, nada mais frustrante do que um quebra-cabeça de 2.999 peças, certo?

(Pior era quando eu, no meu desespero ingênuo tentava juntar peças que não se encaixavam, principalmente quando se tratava de límpidos e homogêneos céus azuis!)

Aos poucos, a gente vai aprendendo que cada quebra-cabeça é o que é e como é. Às vezes têm encaixes imperfeitos, outros não ficam do nosso jeito e em alguns, incompreensivelmente, faltam peças, mas nem por isso são menos bonitos. Descobri, que o gostoso é descobrir cada pecinha que monta o todo, onde cada detalhe é imprescindível e coerente. E forçar encaixes que não servem, não serve de nada. O prazer é ver uma figura se formando aos poucos, nos cuidados dos dedos, com paciência e detalhe pela obra lentamente descoberta, explorada. No final, pode não ser tão colorida ou perfeita quanto esperava, mas têm a história nos seus talhes e o orgulho, além de terminar e pendurar emoldurada na parede, é lembrar do trabalho que deu para conhecê-la e tentar redescobri-la todo dia. Cada detalhe.


Aos poucos fui aprendendo que o título desse texto faz sentido.


JG

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dos versos que não rimaram

Os versos que decorei quando tinha oito ou nove anos para levar para a escola e declamar na frente da turma não faziam sentido nenhum para mim. A professora só pediu para levarmos um poema e lermos. Procurei nos livros que tinha em casa até achar um que gostasse. Achei! e gostei assim: sem muita razão e filosofia. Os versos tinham um ritmo, as rimas eram diferentes e eu tinha um tio que sempre lia (aquele tal) Fernando Pessoa. Então, ali, nos meus oito ou nove anos, entre gibis da Mônica, desenhos do Wally e a coleção do Sítio do Pica-Pau Amarelo, fiz questão de decorar Liberdade.

Aquele meu tio - com quem, depois, passaram a me comparar - era sempre alvo das minhas apurrinhações infantis durante as festas de família. Ele sentava de canto, sorrindo de canto, com o cigarro dançando nos dedos e a cerveja esquentando no copo. Não falava muito, brigava às vezes e, descaradamente, observava os familiares estranhos, familiares e estranhos no recinto. Entre uma bagunça com primos na sala e uma brincadeira no corredor, eu observava...

Observava.

Até que eu puxava uma cadeira entre os adultos, ele puxava papo entre os sobrinhos e eu pedia, com olhos de uma criança querendo doce, para declamar aquele... Aquele, tio! ... Você sabe, sim! ... Aquele "poema de 15 minutos"! Era assim pra mim, pois era o tempo cro-no-me-tra-do que eu prestava atenção nas palavras truncadas, declamadas.

Por causa dele, lembro exatamente da primeira vez que li um poema e da primeira vez que entendi uma falta de rima em Pessoa. O tio (ironicamente) Fernando nunca chegou a ouvir as palavras de Liberdade de minha boca - e eu aposto que ele se orgulharia da herança boêmia que deixou. Procurou do seu jeito as próprias liberdades no vão de uma janela do 6º andar em uma noite de domingo sem nem se dar tempo de poder dizer "Não sou nada". Na manhã seguinte: a epifania. Entendi que ele só estava dividido entre "a tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e a sensação de que tudo é sonho como coisa real por dentro".

E no meio tempo entre o "poema de 15 minutos" e o "Tabacaria", eu muitos outros li, decorei, declamei, escrevi, rasguei, interpretei, entendi, entendi, ENTENDI! e percebi que talvez fosse melhor quando era só ritmo, rima e nada fazia sentido.

Mas não há como deixar de adorar àquele que nas entrelinhas me mergulhou entre versos.


JG


"Por que é que o cão é tão livre?
Porque ele é o mistério vivo que não se indaga"
Clarice Lispector

domingo, 30 de maio de 2010

A mesma velha ferida

Até hoje sou lembrado como o menino escandaloso da Rua Nereida, 51. É, eu não era uma criança muito sutil quando o assunto era médico, cabeleireiro, machucados e afins. Duas vezes tive que levar pontos na testa e das duas vezes foram necessárias cinco pessoas para me segurar e me costurar. Minha mãe conta até hoje como eu espumava e me debatia. Uma vez minha tia foi me ensinar a andar de bicicleta no parque e eu caí - claro. Quando comecei a chorar e gritar, veio socorro de todos os lados. "Deviam achar que eu tava matando o menino", conta minha tia. Quando finalmente deixei que chegassem perto de mim, viram o arranhão de 8cm no meu joelho.

Eu não sabia direito o que significava, mas minha mãe dizia: "João Gabriel, você é muito impressionado". Eu me assustava fácil, me desesperava, sempre achava que toda dor seria pra sempre e nunca iria parar de doer. Se tinha um machucado, ia direto pro chuveiro sob o som das ameaças: "se continuar chorando, vou lavar com bucha!" - numa clara lição de que, se lavou, tá novo - engolia o choro mas continuava soluçando. Depois da bronca, mãe ficava quietinha comigo no banheiro, passando mercúrio, assoprando e dizendo "vai passar, vai passar".

É, com o tempo passava mesmo e logo menos me machucava de novo. Uma vez rolei uma escada de madeira e ralei o rosto. Naquela época eu estava me recuperando de uma catapora. Acordei metade da rua com meu choro, mas, como de costume, passou. A dor foi cruciante no momento, mas, com o tempo, passou.

Por mais que doa, o tempo é sempre o melhor remédio: a dor passa, o desespero some. Aquilo tudo já faz tanto tempo, mesmo... Mas até hoje, quando lavo meu rosto toda manhã e puxo o cabelo para trás, vejo a marca dos 12 pontos na testa me lembrando que não adiantou de nada ter esperneado. Que bom que tinham outras cinco pessoas ali me ajudando a aceitar a dor e o remédio. Que bom que aprendi a suportar as quedas da bicicleta depois do arranhão de 8cm. Que bom que o tempo passa e as cicatrizes ficam, sem que as dores tenham sido em vão.


JG


"Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida.
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer"
-Jean Garfunkel-

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do que aprendi

Introdução:
No cursinho, quando estudávamos escolas literárias, tive a ousadia de cutucar meu professor e perguntar: "Poderíamos dizer que hoje se desenvolve uma escola chamada Auto-Ajuda?". Dei um sorriso de canto meio sonso e ele riu do desafio, sem querer aceitar a realidade. É, auto-ajuda é realmente muito chato, pedante e máquina de tirar dinheiro de tolos inseguros. Mas, me desculpem, vou escrever hoje com um toque de Augusto Cury.

---

Uma das melhores coisas na vida é evoluir. Desde aprender como usar o polegar para segurar a colher de mingau, até ser capaz de resolver exercícios de física no vestibular - mesmo que alguns aprendizados sejam esquecidos depois. O melhor mesmo é sentir que aprendemos alguma coisa, desenvolvemos uma nova habilidade e estamos mais fortes no quesito sobrevivência social. Muita coisa aprendi com livros, pesquisas e a wikipedia, mas meus conhecimentos mais valiosos vieram da minha mãe.

Fico orgulhoso quando vejo alguém em situação desconfortável e posso dizer "minha mãe sempre me ensinou que...". E é verdade, aprendi muito e hoje começo a ser autodidata. Tudo bem, ela me ensinou alguns passos de balé, truques para lavar meias sujas e receitas de bolo de liquidificador. Mas o mais importante foi como ela me ensinou a lidar com pessoas.

Três ensinamentos maternos básicos que levo pra vida:

1- Ninguém é insubstituível: por mais que alguém seja especial na sua vida você tem que aceitar que pessoas vão embora e você deve seguir sem elas.
2- Nunca espere nada de ninguém: faça tudo que fizer sem esperar algo em troca. Não espere que alguém te mande mensagem de resposta ou algum outro presente de volta no seu aniversário.
3- Se você não pode mudar as pessoas, sorria para seus defeitos: você gosta de alguém chato? Azar o seu. Você que escolheu e não tem muito o que fazer além de rir das idiossincrasias alheias.

Aos poucos eu fui botando tudo isso em prática e devo dizer que minha vida ficou bem simples. Aceitei melhor alguns fins (1), me decepcionei menos (2) e fiz as pazes com as irritações do meu pai (3). Mesmo que nos momentos de crise eu não lembre de tudo instantaneamente, serve para recuperar-se mais rápido na volta para a estabilidade.

Junto com tudo isso adicionei uma pitada de poesia e sorriso em tudo que faço, pra ficar,além de mais fácil, mais divertido.


JG




"Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber"

-Renato Russo-

sábado, 8 de maio de 2010

Ressaca só

Quando eu ia para a praia com meus pais nos finais de semana, minha mãe me vestia com uma sunga bem colorida, de cores fortes, chamativa – a típica “mamãe, não me perca”. E ela estava certa por se preocupar. Assim que eu chegava à praia, já percebendo as barracas coloridas, as pipas no céu e o barulho do mar - analisando o território. Enquanto meu pai arrumava o acampamento e minha mãe me besuntava de Copertone e desenrolava o discurso da correnteza forte - ok, mamãe, ok mamãe -, eu jogava os chinelos ao pé do guarda-sol, me livrava da camiseta e do short e ia... Não, não, antes eu devia ficar os benditos 20 minutos na sombra esperando o protetor secar (pelo menos o cheirinho era bom). Aí, sim, eu saía pela praia, de pescoço esticado, fazendo como quem-não-quer-nada, procurando outras crianças para socializar. E assim que achava um alvo interessante, já me intrometia nas sombras dos outros, perguntava se tinha brinquedos e convidava pra ir na beira do mar caçar tatuís.

Essa minha necessidade fetal de estar sempre acompanhado, compartilha das idéias "jobinianas" de que é mesmo impossível ser feliz sozinho. Depois de uma noite divertida com amigos à minha volta rindo, dançando, brindando, acordei hoje de ressaca. Mas, não é ressaca que dá dor de cabeça, sede e mau-humor. Nem é ressaca de falta de memória, arrependimento e vergonha pelos momentos inconsequentes da noite anterior. É uma ressaca causada pelo vento frio lá fora e um apartamento vazio aqui dentro. Antes éramos e agora sou.

Acostumo-me, por falta de escolha. No início era pai, mãe, avós, amigos, cachorro e papagaio. E aos poucos você vai tomando as rédeas, que você até pode pedir ajuda para segurá-las, mas cada vez mais é você e menos os outros. Até você chegar no paradigma de ir "morar sozinho" e todos os seus dilemas anexos.

Vou ver um filme, escutar uma música, escrever um texto e pensar nos meus amigos que estão lá fora me ajudando com as rédeas, mas não vou buscá-los agora. Estou precisando fazer um intensivo, porque a vida é a arte de aprender a ser sozinho.


JG


"Pobre vida que toda depende
De um sorriso, de um gesto, um olhar..."
-Mário Quintana-

domingo, 2 de maio de 2010

Fases dos flashes

Esses dias resgatei uma câmera fotográfica analógica que meu tio guardava há uns 20 anos sem saber por quê. Devia estar guardando pra mim. Ela ficou no fundo do armário, no meio dos documentos antigos empoeirados durante todo esse tempo, em uma caixa quase rasgada, esquecida no ir e vir das mudanças. Mas na última mudança quem a encaixotou fui eu e fiz questão de salvá-la do pobre destino com cheiro de naftalina. Então comprei filme e bateria e saí testando - a cada flash, um flashback.

Memórias de quando tinha que abrir a máquina no escuro para pôr o filme e esperar alguns dias para revelar, ou quando veio a grande evolução da revelação em uma hora! E como a gente colocava as fotos nos álbuns da kodak e guardava os negativos "pra depois ampliar!", mas nunca o fazíamos. Os álbuns empilhavam-se nos armários e eram espalhados na sala de (quando) visitas. Ah, essa nostalgia inerente à imagem congelada.

Ás vezes a gente precisa de um momento calmo pra estudar nossa própria história e lembrar como éramos e no que estamos nos tornando. Quando estou na casa dos meus pais, sempre pego esses álbuns antigos e fico me vendo desde a barriga da minha mãe (aquela foto dela, grávida e de biquini haha), passando pelas fotos de criança (vestido de caipira na festa junina do primário), com a família inteira no natal e a moda dos anos 90. Mas aí tudo pára na adolescência! Desgraça de máquinas digitais... (e não me venham com argumentos de possibilidades tecnológicas).

Resolvi meu problema tentando utilizar bem os álbuns do orkut e os posts do fotolog (que, se depender de mim, nunca serão deletados). E hoje me pego passeando por esses pixels, vendo como a evolução foi boa. Cada álbum é uma fase única, com personagens interessantes e tramas que constrõem a personalidade do protagonista. Os capítulos estão cada vez mais distantes e eu nunca vou deixar de registrar imagens que um dia me relembrem daquele dia que passou - e qual passagem foi escrita naquele dia.

A cada foto que vejo, eu penso "era uma vez, um menino...".



JG


"Vejo o futuro repetir o passado.
Vejo um museu de grandes novidades.
O tempo não pára!"
Cazuza