Esses dias resgatei uma câmera fotográfica analógica que meu tio guardava há uns 20 anos sem saber por quê. Devia estar guardando pra mim. Ela ficou no fundo do armário, no meio dos documentos antigos empoeirados durante todo esse tempo, em uma caixa quase rasgada, esquecida no ir e vir das mudanças. Mas na última mudança quem a encaixotou fui eu e fiz questão de salvá-la do pobre destino com cheiro de naftalina. Então comprei filme e bateria e saí testando - a cada flash, um flashback.
Memórias de quando tinha que abrir a máquina no escuro para pôr o filme e esperar alguns dias para revelar, ou quando veio a grande evolução da revelação em uma hora! E como a gente colocava as fotos nos álbuns da kodak e guardava os negativos "pra depois ampliar!", mas nunca o fazíamos. Os álbuns empilhavam-se nos armários e eram espalhados na sala de (quando) visitas. Ah, essa nostalgia inerente à imagem congelada.
Ás vezes a gente precisa de um momento calmo pra estudar nossa própria história e lembrar como éramos e no que estamos nos tornando. Quando estou na casa dos meus pais, sempre pego esses álbuns antigos e fico me vendo desde a barriga da minha mãe (aquela foto dela, grávida e de biquini haha), passando pelas fotos de criança (vestido de caipira na festa junina do primário), com a família inteira no natal e a moda dos anos 90. Mas aí tudo pára na adolescência! Desgraça de máquinas digitais... (e não me venham com argumentos de possibilidades tecnológicas).
Resolvi meu problema tentando utilizar bem os álbuns do orkut e os posts do fotolog (que, se depender de mim, nunca serão deletados). E hoje me pego passeando por esses pixels, vendo como a evolução foi boa. Cada álbum é uma fase única, com personagens interessantes e tramas que constrõem a personalidade do protagonista. Os capítulos estão cada vez mais distantes e eu nunca vou deixar de registrar imagens que um dia me relembrem daquele dia que passou - e qual passagem foi escrita naquele dia.
A cada foto que vejo, eu penso "era uma vez, um menino...".
JG
"Vejo o futuro repetir o passado.
Vejo um museu de grandes novidades.
O tempo não pára!"
Cazuza
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domingo, 2 de maio de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
Desbravador
Minha mãe sempre me incentivou a ler, estudar, conhecer, explorar - ou qualquer outro verbo que me levasse ao conhecimento. Começou com quadrinhos da Turma da Mônica que se espalhavam por todos os cômodos da casa (principalmente o banheiro: santa proltrona digna de gibis!). Mesmo antes de saber ler, me divertia com as figuras. Com seis anos de idade eu lembro que estava indo comprar pão com minha vó, segurava a mão dela e ali, parado na calçada antes de atravessar a rua, li minha primeira palavra fora da escola: "L-i-n-d-a". Era só o nome da padaria, mas nunca mais esqueci da escrita cursiva no neon vermelho que desenhava na marquise: "Linda".
Depois minha mãe passou a me mostrar a obra completa do Sítio do Pica-Pau Amarelo e não parei mais de aprender. Gostava de estudar coisas novas, misérios, enciclopédias. Lembro até hoje da coleção de capa vermelha que tinha figuras aterrorizantes. Nunca pesquisava no volume de letra T, porque sempre abria na página que tinha a foto de um peixe enorme, com a bocarra escancarada como se fosse pular do livro! Ah, sempre fui muito chato por perguntar muito. No quintal da minha casa havia uma vastidão de coisas desconhecidas - "porquês" plantados em cada canto. "Por que tem uma pedra preta dentro da flor amarela?". "Por que tem tanto cipó em volta da árvore?". "Por que o tatuzinho se enrola quando eu pego ele?". Adorava a escola e nada me limitava.
Na mesma época, aprendi a dançar. Minha mãe me perguntou, enquanto entrava comigo de mãos dadas na escola: "O que você acha de fazer sapateado?". Com certeza não me lembro das palavras exatas, mas é impossível esquecer da minha resposta afirmativa. Das minhas memórias arranhadas, entendo que não foi um momento de grande entusiasmo, mas disse "sim" simplesmente para aprender mais alguma coisa nova.
E fui aprendendo, conhecendo, respondendo minhas dúvidas enquanto crescia e mais perguntas apareciam - cada vez mais desafiadoras. Até que passei a conhecer pessoas e conhecer as pessoas. Os gestos, os olhares, os significados das falas; porque as palavras faladas já conhecia, só não sabia de suas múltiplas distorções. E junto das pessoas, fui aprendendo a sentir e os sentimentos; porque as palavras que os designavam já conhecia, só não sabia o que era até eu sentir e perceber.
Desde então, o ser humano passou a ser a disciplina que mais gosto de ler, estudar, conhecer, explorar... Desde então os sentimentos são dúvidas, incertezas, inspirações - porquês plantados em todo canto, em toda fala, em todo olhar, em todo gesto. Dessa vez não tem enciclopédia pra pesquisar ou adulto pra questionar. Não tem respota, não faz sentido.
E é melhor deixar assim, pra que eu nunca deixe de me vislumbrar quando eu ler "carinho" estampado na fachada de alguém.
JG
Depois minha mãe passou a me mostrar a obra completa do Sítio do Pica-Pau Amarelo e não parei mais de aprender. Gostava de estudar coisas novas, misérios, enciclopédias. Lembro até hoje da coleção de capa vermelha que tinha figuras aterrorizantes. Nunca pesquisava no volume de letra T, porque sempre abria na página que tinha a foto de um peixe enorme, com a bocarra escancarada como se fosse pular do livro! Ah, sempre fui muito chato por perguntar muito. No quintal da minha casa havia uma vastidão de coisas desconhecidas - "porquês" plantados em cada canto. "Por que tem uma pedra preta dentro da flor amarela?". "Por que tem tanto cipó em volta da árvore?". "Por que o tatuzinho se enrola quando eu pego ele?". Adorava a escola e nada me limitava.
Na mesma época, aprendi a dançar. Minha mãe me perguntou, enquanto entrava comigo de mãos dadas na escola: "O que você acha de fazer sapateado?". Com certeza não me lembro das palavras exatas, mas é impossível esquecer da minha resposta afirmativa. Das minhas memórias arranhadas, entendo que não foi um momento de grande entusiasmo, mas disse "sim" simplesmente para aprender mais alguma coisa nova.
E fui aprendendo, conhecendo, respondendo minhas dúvidas enquanto crescia e mais perguntas apareciam - cada vez mais desafiadoras. Até que passei a conhecer pessoas e conhecer as pessoas. Os gestos, os olhares, os significados das falas; porque as palavras faladas já conhecia, só não sabia de suas múltiplas distorções. E junto das pessoas, fui aprendendo a sentir e os sentimentos; porque as palavras que os designavam já conhecia, só não sabia o que era até eu sentir e perceber.
Desde então, o ser humano passou a ser a disciplina que mais gosto de ler, estudar, conhecer, explorar... Desde então os sentimentos são dúvidas, incertezas, inspirações - porquês plantados em todo canto, em toda fala, em todo olhar, em todo gesto. Dessa vez não tem enciclopédia pra pesquisar ou adulto pra questionar. Não tem respota, não faz sentido.
E é melhor deixar assim, pra que eu nunca deixe de me vislumbrar quando eu ler "carinho" estampado na fachada de alguém.
JG
quinta-feira, 18 de março de 2010
Semtemporâneo?
O tempo consumiu minhas horas, assim, meio que incompreensivelmente. Todo tempo livre que me restou eu usei pra dar tempo ao tempo. Mas isso não significa que me sentei em banco de ferro para esperar, porque nem ao menos sentei: continuiei correndo contra o tempo. Aguardei as respotas que viriam com o tempo mas continuava correndo atrás do tempo perdido. E nesse meio-tempo, me caiu um temporal de preocupações, incertezas e maratonas improdutivas.
Então, tentei me poupar de tantos aflitos pensamentos, sem ter que pensar no futuro, enquanto tento desenrolar o presente. Estou aproveitanto tanto quanto tem pra aproveitar até que seja preciso tomar tudo pelos braços e partir. Cada tic-tac tá sendo, mesmo, uma balinha que tento saborear por todo sempre. Vou decompondo cada momento como cata-vento em vento outonal. Devagar, cada cor, cada sabor, no tempo certo. Até os últimos segundos do segundo tempo.
JG
"Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora"
Então, tentei me poupar de tantos aflitos pensamentos, sem ter que pensar no futuro, enquanto tento desenrolar o presente. Estou aproveitanto tanto quanto tem pra aproveitar até que seja preciso tomar tudo pelos braços e partir. Cada tic-tac tá sendo, mesmo, uma balinha que tento saborear por todo sempre. Vou decompondo cada momento como cata-vento em vento outonal. Devagar, cada cor, cada sabor, no tempo certo. Até os últimos segundos do segundo tempo.
JG
"Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora"
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Crepúsculo
Que cores são essas que iluminam o céu?
Não ousaria chamar de rosa, azul ou amarelo.
São cores que não estampam os vestidos das moças.
Não estão na maquiagem do palhaço.
Nem colorem o caderno da criança.
Não pintam, iluminam.
Tudo que vejo ao redor mudou de tom.
Se a árvore era verde, agora é verde-pôr-do-sol.
Se a rosa era vermelha, agora é vermelha-pôr-do-sol.
Por alguns minutos efêmeros, o mundo se torna um palco sob foco tão inspirador.
Onde quero dançar palavras
Onde quero cantar suspiros
E você aí dentro, azul, na frente da TV.
Não vê que o Sol se vai e
você não vai assistir ao meu solo.
Vem dançar comigo, deixa eu dançar pra você.
Vem dançar comigo, que a gente faz uns passos coloridos.
JG
Não ousaria chamar de rosa, azul ou amarelo.
São cores que não estampam os vestidos das moças.
Não estão na maquiagem do palhaço.
Nem colorem o caderno da criança.
Não pintam, iluminam.
Tudo que vejo ao redor mudou de tom.
Se a árvore era verde, agora é verde-pôr-do-sol.
Se a rosa era vermelha, agora é vermelha-pôr-do-sol.
Por alguns minutos efêmeros, o mundo se torna um palco sob foco tão inspirador.
Onde quero dançar palavras
Onde quero cantar suspiros
E você aí dentro, azul, na frente da TV.
Não vê que o Sol se vai e
você não vai assistir ao meu solo.
Vem dançar comigo, deixa eu dançar pra você.
Vem dançar comigo, que a gente faz uns passos coloridos.
JG
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Ali é onde há pra ir (e devemos todos)
E ali, entre tanto asfalto, muro, poste. Sob tantos edifícios altos, espelhados, imponentes. Havia uma praça verde, de tantos tons de verde, com bancos confortavelmente convidativos com espaço suficiente para deixar uma pessoa só solitária e insuficente para três pessoas se apertarem. Eram bancos para dois, perfeito para dois. Pequenos ímãs para uma conversinha, uma fofoca, um reencontro. Pequenos refúgios para um carinho, para dois olhares, para quatro mãos dadas. E não poderia haver outro lugar para ir. Andaram até ali, pois ali era onde havia onde ir. Com passos rápidos até pisarem no verde, em cada tom de verde, se deixam levar devagar até se sentarem em um dos bancos feitos perfeitamente para dois. E eles eram dois. E passaram duas horas como fossem dois meses com dois olhares vidrados e quatro mãos entrelaçadas. O banco em que sentavam parecia sorrir por estar cumprindo sua utilidade. Ele era mais alto que os muros, postes e edifícios. E a noite era mais clara de mãos dadas.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Hoje acertei o sal no almoço.
Mas falta sal em mim - ando tão sem gosto. A rotina foi me cozinhando em desgostos que acabaram me azedando. Aí não acertei a mão no preparo da saudade, exagerei a quantidade na pitada de lágrimas e errei a medida de preocupações da idade. Agora toda essa mistura tá com gosto acentuado de amargura. O que fazer? Saiu do ponto! A receita preparada a contra-gosto tá intragável de contorcer o rosto. Mas engulo! Goela a baixo! E parto pro preparo do próximo prato: a sobremesa! Pra deixar esse texto mais doce e a vida um pouquinho mais fácil.
JG
"Se o bolo fica sem ovo
Se a massa não tem fermento
Se não cozinha por dentro
Vai tudo por água abaixo!"
-Elis Regina canta-
JG
"Se o bolo fica sem ovo
Se a massa não tem fermento
Se não cozinha por dentro
Vai tudo por água abaixo!"
-Elis Regina canta-
domingo, 24 de janeiro de 2010
Só mais um
Eu hoje queria vomitar aqui mais um poema
Mas não vai dar, embora valha a pena
Queria falar da minha inquietação, do meu cansaço
Mas não adianta! Não acho tema!
E sem a tal da inspiração nao sei o que faço...
Mas espere! Por mais inacreditável que seja!
Olhando assim, vejo produto da minha peleja
Versos truncados sem querer e sem propósito!
Fiz poema de repente, e você veja,
É só mais um pro meu literato depósito.
JG
Mas não vai dar, embora valha a pena
Queria falar da minha inquietação, do meu cansaço
Mas não adianta! Não acho tema!
E sem a tal da inspiração nao sei o que faço...
Mas espere! Por mais inacreditável que seja!
Olhando assim, vejo produto da minha peleja
Versos truncados sem querer e sem propósito!
Fiz poema de repente, e você veja,
É só mais um pro meu literato depósito.
JG
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
(Im)Previsto
Freando seu Uno cinza em frente ao semáforo vermelho, ela aproveita o trânsito parado para se olhar no retrovisor e corrigir alguma falha. Bagunça um pouco os cachos revoltos para não parecer que se arrumou muito e molha na ponta da língua um guardanapo para tirar algum excesso de maquiagem. Dessa vez ele já vai estar lá, esperando por ela. Seu sorriso infantil mostra seu nervosismo bobo - no limiar da ansiedade controlada e o prazer de deixá-lo esperando só mais um pouquinho. Av. Paulista, sua maquiagem e a previsão de chuva. Mas, dessa vez, ele já deve estar lá, esperando por ela.
-
Sentada, esperando, ela perde o olhar e perde o ônibus. Quando tenta se levantar para talvez alcançá-lo, percebe que já perdeu tanto que acostumou a esperar. Esperar até pela esperança. Seus olhos varrem o chão, a rua. Se prende em coisas e não repara as pessoas. Tudo olha, mas não olha para cima. Os olhos carregam os ombros para baixo e puxam suspiros longos. A sacola de papel na sua mão não parece pesar mais que seu semblante. A outra mão acaricia o ventre. Av. Paulista, sua sacola e a previsão de chuva. Mas ela tudo olha, menos pra cima.
-
Correndo. Correndo. Numa mão o paletó e na outra um aceno constante que busca projetar mais longe seus olhos que miram o rabo-de-cavalo loiro do outro lado da rua. Um assobio é emudecido na sinfonia do caos urbano. Ele não leva nas mãos algo que ela tenha esquecido no escritório. Eles nem trabalham juntos. Ele é que não esqueceu nada. E seu olhar esperançoso - de maratonista avistando o pódium - contempla uma possibilidade única. Av. Paulista, seu aceno e a previsão de chuva. Mas ele não esqueceu nada.
-
A chuva lava a cidade e as almas.
JG
-
Sentada, esperando, ela perde o olhar e perde o ônibus. Quando tenta se levantar para talvez alcançá-lo, percebe que já perdeu tanto que acostumou a esperar. Esperar até pela esperança. Seus olhos varrem o chão, a rua. Se prende em coisas e não repara as pessoas. Tudo olha, mas não olha para cima. Os olhos carregam os ombros para baixo e puxam suspiros longos. A sacola de papel na sua mão não parece pesar mais que seu semblante. A outra mão acaricia o ventre. Av. Paulista, sua sacola e a previsão de chuva. Mas ela tudo olha, menos pra cima.
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Correndo. Correndo. Numa mão o paletó e na outra um aceno constante que busca projetar mais longe seus olhos que miram o rabo-de-cavalo loiro do outro lado da rua. Um assobio é emudecido na sinfonia do caos urbano. Ele não leva nas mãos algo que ela tenha esquecido no escritório. Eles nem trabalham juntos. Ele é que não esqueceu nada. E seu olhar esperançoso - de maratonista avistando o pódium - contempla uma possibilidade única. Av. Paulista, seu aceno e a previsão de chuva. Mas ele não esqueceu nada.
-
A chuva lava a cidade e as almas.
JG
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Vazio
Tantos poemas no peito
que morrem na garganta
que não escorrem pelos dedos.
Meia dúzia de pensamentos vagos,
e palavras perdidas
Mas a necessidade inerente de escrever.
Declarações de um Romeu tímido,
discursos de um Hamlet mudo.
Na ponta da caneta
só desespero e tinta preta
que se derramam no papel
feito prantos dadaístas.
JG
que morrem na garganta
que não escorrem pelos dedos.
Meia dúzia de pensamentos vagos,
e palavras perdidas
Mas a necessidade inerente de escrever.
Declarações de um Romeu tímido,
discursos de um Hamlet mudo.
Na ponta da caneta
só desespero e tinta preta
que se derramam no papel
feito prantos dadaístas.
JG
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Quis escrever um drama (sem)(de) propósito
Eles têm uma vida comum. Uma vida de família. Dependendo qual padrão de família você reconhece. Pais e um filho: dois sorrisos falsos e um sempre emburrado saindo de restaurantes caros, entrando em carros bem equipados.
À noite ela espera sentada no sofá, de frente para a porta que ameaça ser aberta a cada instante. No robe confortável, à meia-luz e um copo que merecia um whisky mas só tem água. Água do gelo derretido, é claro. Ela mantém um perfil de olhar vago para dramatizar o passado e maquinar a cena por vir.
Quando a chave gira na porta ele já espera uma atitude e nem se preocupa em entrar pé-ante-pé no apartamento. Sabe que são os dois apenas. "Papai, viaja para Paris e me deixa de enfermeiro com essa louca."
"Você... criado como um cartão de crédito, a quem ele ama igual ou ainda mais. Quem você pensa que é, pequeno monte de ganância vestido em cifrões dos outros?"
Voz calma, soberba e ligeiramente insana. O script está correndo bem... "agora ele vai suspirar, dar de ombros e sair para o quarto. Minha deixa."
"Não! Chega de fingir que os problemas não estão crescendo entre nós. Eu não sei mais da sua vida sem rumo desde que você saiu daqui, ó!"
- Cala a boca e vai dormir, mamãe.
Ele está passeando, trabalhando, comendo croissant e se divertindo com amantes. Ah, porque me exigem manter uma família?
JG
À noite ela espera sentada no sofá, de frente para a porta que ameaça ser aberta a cada instante. No robe confortável, à meia-luz e um copo que merecia um whisky mas só tem água. Água do gelo derretido, é claro. Ela mantém um perfil de olhar vago para dramatizar o passado e maquinar a cena por vir.
Quando a chave gira na porta ele já espera uma atitude e nem se preocupa em entrar pé-ante-pé no apartamento. Sabe que são os dois apenas. "Papai, viaja para Paris e me deixa de enfermeiro com essa louca."
"Você... criado como um cartão de crédito, a quem ele ama igual ou ainda mais. Quem você pensa que é, pequeno monte de ganância vestido em cifrões dos outros?"
Voz calma, soberba e ligeiramente insana. O script está correndo bem... "agora ele vai suspirar, dar de ombros e sair para o quarto. Minha deixa."
"Não! Chega de fingir que os problemas não estão crescendo entre nós. Eu não sei mais da sua vida sem rumo desde que você saiu daqui, ó!"
- Cala a boca e vai dormir, mamãe.
Ele está passeando, trabalhando, comendo croissant e se divertindo com amantes. Ah, porque me exigem manter uma família?
JG
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