Houve uma época em que o Fantástico apresentava matérias, domingo sim-domingo também, sobre extraterrestres, abduções, chupa-cabras e afins. Eram imagens meios turvas, às vezes em tons de verde das filmagens noturnas e sempre muito misteriosas. Eu sentia uma vontade de assistir, mas sabia que ia morrer de medo mais tarde. Medo era uma coisa inexplicavelmente atraente. Não queria ver, tapava a cara, mas filtrava as imagens entre os vãos dos dedos, como se as imagens parciais não fossem tão reais. Meu pai chegou a me dar um chaveiro em formato de Gremlin (depois da água), que seria a personificação do chupa-cabra, para ver se eu me acostumava com a fantasia toda, criada pela televisão.
Fantasmas eram o meu ponto fraco. Com essa imaginação fértil que nunca me faltou, eu via, ouvia, sentia a presença deles em todos os cantos durante a noite, sozinho no quarto. Desde então cultivei a mania de não conseguir dormir com as portas dos armários abertas. Minha mãe sempre dizia: "João, você é muito impressionado". Era mesmo. Fantasmas poderiam fazer qualquer coisa com a gente! às vezes eu até ficava pensando no que eu faria se eu fosse um. Quando ficava com muito medo e não conseguia dormir de desespero, o discurso materno era sempre o mesmo; "Os mortos já estão mortos, você tem que ter medo dos vivos!". Não sei porque, mas aquele mandamento sempre me remetia à imagem de um cemitério e me fazia ter mais medo. Para que ter medo dos vivos? - eu pensava. Talvez pela segurança que sentia entre os pais, ladrão e outras classes de inimigos públicos eram coisa de adultos e que não me atingiriam. Eu juro que me esforçava a pensar: "Não, João, os ladrões que sãos os maus de verdade". Não adiantava... Fantasmas continuavam dominando meus pesadelos.
Há três dias atrás eu vi a cena de um assassinato na minha faculdade, minha segunda casa em São Paulo.
Foi como um soco de realidade na minha cara, manchando de sangue a natureza do ser humano - minha própria espécie. Pela primeira vez não consegui dormir com medo do que o homem é capaz. E reconheci o discurso da minha mãe em toda a minha volta, percebendo que fantasmas não são tão ruins assim, afinal são os homens que fazem os fantasmas: com a imaginação ou com o ódio.
JG
sábado, 21 de maio de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Cocada
Era meu gato quando morava no Rio. Ele tinha esse nome porque no tempo em que o adotamos, meu pai vendia água de coco na praia. Cocada era esperto, tranquilo e carinhoso. Meus pais nunca permitiram animal dentro de casa, então ele levava uma vida de gato de muro: caçando passarinhos, tomando sol no telhado e destruindo uma flor aqui e ali. Nos domingos eu acordava antes da casa toda e deixava ele entrar pra ficar comigo na sala enquanto eu assistia TV. Esperto, ele aproveitava a chance para burlar as leis domésticas. Tranquilo, ele se deitava do meu lado e quase dormia. Carinhoso, ele ronronava baixinho para conseguir tirar minha atenção dos desenhos animados.
Mas, Cocada era um gato. Não ficava mais de vinte minutos ali comigo. Queria logo seu quintal, seu muro, seus passarinhos... E nem por isso achava que gostava menos de mim ou eu dele, afinal, liberdade felina não é coisa para se brincar ou negar. Eu só entendia que ele queria ir, mudar, brincar. Sei que ele voltaria, mas não esperava que o fizesse, tomando sua natureza imprevisível.
Percebi que tenho agido muito como cão e seria bom aceitar que ser gato de vez em quando é necessário. Assim como aceitar que existem muitos gatos por aí e que alguns podem voltar no domingo seguinte, outros não voltam mais.
JG
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Canções retornáveis
Hoje em dia elas nem são mais tão populares, mas há uns quinze anos atrás, era inconcebível a idéia de almoço no domingo sem Coca-Cola na garrafa retornável. Uns minutos antes de pôr a mesa com carne assada e macarronada, minha mãe gritava “João, vai na padaria comprar refrigerante”. Domingo sim, domingo não porque afinal de contas meu irmão também devia ter obrigações. E já no meio da rua minha mãe gritava de novo “Não esquece da garrafa lá no barracão!” (um espaço no fundo do quintal onde guardávamos tranqueiras).
Entregava a garrafa vazia no balcão da padaria e levava pra casa cheia. Por um tempo achei até que eles enchiam ali, na hora!
E era assim: levava vazia, enchia, bebia tudo, me deliciava e retornava. Até um ponto que deixei de esquecer a garrafa, sempre saindo de casa já com ela, e parei de me perguntar onde eles enchiam a garrafa com o líquido maravilhoso.
Mas hoje ta tudo bem. Tirando o fato as compras que fiz com um dia de antecedência, quando, na verdade, elas deviam ser feitas no auge da carência e solidão. Compras para preencher com sacolas e etiquetas todos os espaços vazios da alma onde podem se alojar uma depressãozinha, sabe? Vai ver comprei tudo adiantado justamente para evitar ter que gastar o dobro com as lágrimas engolidas e o fone de ouvido no último volume tocando “Doth I protest too much” da Alanis.
Tava tudo bem. Foi uma premonição? Pode até ser. Porque hoje no metrô tocou Simple Together (também da Alanis) duas vezes seguidas mesmo com o shufle ligado.
Mas ta tudo bem. Com as micro-aulas de canto, improvisadas entre um vinho e os lençóis, aprendi com você a respirar: só para agora respirar fundo!
Tudo bem, as compras foram adiantadas mas o Gyn Tonica está sempre a postos na mesa do bar, na sala de estar.
Tudo bem, mesmo... Mesmo que eu não vá mais ter a chance de te escrever músicas ou entender as suas piadas. Porque só depois de sessenta e quatro anos eu começaria a entender o seu tipo de humor e quando for famoso não vai mais querer saber das minhas rimas cafonas.
Tá tudo bem, tudo bem tudo bem... Tudo dentro do mesmo ciclo de começos e fins, tão lógico e previsível à natureza humana quanto uma garrafa retornável.
Às vezes o coração da gente é assim: retornável. Quando esvazia a gente vai lá e pede pra encherem de novo, a gente bebe até a última gota, sacia a sede e sente aquela tristeza que dá em todo mundo no final do êxtase.
Outras vezes bebem todo nosso líquido e esquecem a garrafa lá no barracão, lá no fundo.
E eu? Eu vou dormir vazio e acordar cheio.
“Tonight i’m gonna rest my chemestry...” afinal, continuo “so young, so sweet, so surprised...”
JG
domingo, 10 de abril de 2011
A little cheesy jazz
(I think I'm feeling blue
but I'm not sure if blue it is
I guess it is something like this)
Sad as a table set with no flowers
Sad as the flowers waiting for a bee
Sad as the bee trying to reach outta window
The window I closed so then I couldn't see
The tables set along the walkside
The flowers blooming on trees
The bees flying upon the gardens
Flying free, free, free...
And all i wanted in this morning spring
Were you laying here next to me
Being lazy till the clocks beat noon
And have breakfast untill three
So I wouldn't feel so bad
So I'd forget how it's to feel...
Sad as a table set with no flowers
Sad as the flowers waiting for a bee
Sad as the bee trying to reach outta window
The window you closed so you could surprise me
The table is now set with flowers and candles
The flowers are smelling as the morning spring breeze
The bee can go out when you open the door
So we can be together tonight at least.
(Feeling blue is not so sad
when in the end of the day
blue is colorful instead.)
but I'm not sure if blue it is
I guess it is something like this)
Sad as a table set with no flowers
Sad as the flowers waiting for a bee
Sad as the bee trying to reach outta window
The window I closed so then I couldn't see
The tables set along the walkside
The flowers blooming on trees
The bees flying upon the gardens
Flying free, free, free...
And all i wanted in this morning spring
Were you laying here next to me
Being lazy till the clocks beat noon
And have breakfast untill three
So I wouldn't feel so bad
So I'd forget how it's to feel...
Sad as a table set with no flowers
Sad as the flowers waiting for a bee
Sad as the bee trying to reach outta window
The window you closed so you could surprise me
The table is now set with flowers and candles
The flowers are smelling as the morning spring breeze
The bee can go out when you open the door
So we can be together tonight at least.
(Feeling blue is not so sad
when in the end of the day
blue is colorful instead.)
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
A ansiedade me consome, me come, meu tempo some.
E eu estou cruo, eu suo, mas não construo um futuro.
E eu tenho um sonho tamanho que-eu componho e não ganho
E eu canto tanto meu pranto, eu fujo, e sou o absurdo.
Eu passo dia cansado, eu vivo, trago e não faço
Eu trepo e bebo desgraças, finjo que danço a lambada
Eu nado fácil de costas numa piscina de cinzas
Juro que não sou das massas, eu quero tudo e sou nada.
E ando...
Numa avenida sem ladeira, sem bueiros
Num parque sem videiras, sem canteiros
Num precipício, sem beira
Num queira queira e não queira
No meu sonho sem Dalí, tudo é normal a vida inteira.
E eu estou cruo, eu suo, mas não construo um futuro.
E eu tenho um sonho tamanho que-eu componho e não ganho
E eu canto tanto meu pranto, eu fujo, e sou o absurdo.
Eu passo dia cansado, eu vivo, trago e não faço
Eu trepo e bebo desgraças, finjo que danço a lambada
Eu nado fácil de costas numa piscina de cinzas
Juro que não sou das massas, eu quero tudo e sou nada.
E ando...
Numa avenida sem ladeira, sem bueiros
Num parque sem videiras, sem canteiros
Num precipício, sem beira
Num queira queira e não queira
No meu sonho sem Dalí, tudo é normal a vida inteira.
domingo, 24 de outubro de 2010
Exchange
The very first time we met
You gave me a long glance
Three frozen seconds in air
Like a silent, calm dance
And then you gave me your number
The perfect key to a future treasure
As days passed by, you kept giving me gifts
But those i cannot measure
You gave me your touch
You gave me so much
Your comprehension
Hot coffees and sweet teas
And now I wanna give you this
My song, my rhythm
I wanna give you me
So from now on
that's how it's gonna be
A true exchange between you and me
And it's all arranged
I'll be yours, you'll be mine
we are truly exchanged and it feels so fine.
JG
(Razão do texto: durante a noite me veio uma palavra (o título), no caminho de volta pra casa me veio uma idéia (a última estrofe) e depois disso baixou uma cafonice à la jason m'raz. E nem tenho vergonha disso)
You gave me a long glance
Three frozen seconds in air
Like a silent, calm dance
And then you gave me your number
The perfect key to a future treasure
As days passed by, you kept giving me gifts
But those i cannot measure
You gave me your touch
You gave me so much
Your comprehension
Hot coffees and sweet teas
And now I wanna give you this
My song, my rhythm
I wanna give you me
So from now on
that's how it's gonna be
A true exchange between you and me
And it's all arranged
I'll be yours, you'll be mine
we are truly exchanged and it feels so fine.
JG
(Razão do texto: durante a noite me veio uma palavra (o título), no caminho de volta pra casa me veio uma idéia (a última estrofe) e depois disso baixou uma cafonice à la jason m'raz. E nem tenho vergonha disso)
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Peças e pessoas
O primeiro quebra-cabeça que montei tinha 500 peças e era a foto de um cavalo em um campo de flores amarelas. Claro que não o concluí sozinho, afinal ainda era um novato naquela arte cheia de manhas que você vai aprendendo aos poucos. Minha mãe montou comigo, sobre um pedaço de papelão que depois encapamos com "contact" e penduramos na parede. Depois daquele cavalo, nunca mais parei. Quando queriam me alegrar, os parentes me davam quebra-cabeças de presente. Acabei pegando os vícios e as manhas, que, entre tantas, as principais para manter a sobrevivência mental durante a peleja das tantas peças miúdas eram: 1) sempre separe as peças azuis que formam o céu da paisagem e 2) nunca compre um quebra cabeça com muito céu. Assim, perdi a conta de quantas peças já encaixei, quanto tempo passei decifrando formatos e quantas figuras montei e esqueci depois. O cavalo encapado está hoje em cima de algum armário. Empoeirando.
"Afinal, qual a graça de um quebra-cabeça já montado?", era o que eu pensava. O legal é tentar fazer igualzinho a foto na caixa do brinquedo - apesar de a Grow sempre deixar explícito o aviso não-se-iluda de que a imagem era "meramente ilustrativa". Mas eu queria fazer igual: tão colorida, tão detalhada, tão perfeita quanto. Olhava todas aquelas peças e já visualizava o quadro lindo que eu me orgulharia em montar (tolinho...). No final nunca era igual à imagem "meramente ilustrativa" da capa. Os traços das peças ficavam evidentes ou a cor não era tão viva. Grande drama com direito a esperneios de filho caçula era quando faltava uma peça, afinal, nada mais frustrante do que um quebra-cabeça de 2.999 peças, certo?
(Pior era quando eu, no meu desespero ingênuo tentava juntar peças que não se encaixavam, principalmente quando se tratava de límpidos e homogêneos céus azuis!)
Aos poucos, a gente vai aprendendo que cada quebra-cabeça é o que é e como é. Às vezes têm encaixes imperfeitos, outros não ficam do nosso jeito e em alguns, incompreensivelmente, faltam peças, mas nem por isso são menos bonitos. Descobri, que o gostoso é descobrir cada pecinha que monta o todo, onde cada detalhe é imprescindível e coerente. E forçar encaixes que não servem, não serve de nada. O prazer é ver uma figura se formando aos poucos, nos cuidados dos dedos, com paciência e detalhe pela obra lentamente descoberta, explorada. No final, pode não ser tão colorida ou perfeita quanto esperava, mas têm a história nos seus talhes e o orgulho, além de terminar e pendurar emoldurada na parede, é lembrar do trabalho que deu para conhecê-la e tentar redescobri-la todo dia. Cada detalhe.
Aos poucos fui aprendendo que o título desse texto faz sentido.
JG
"Afinal, qual a graça de um quebra-cabeça já montado?", era o que eu pensava. O legal é tentar fazer igualzinho a foto na caixa do brinquedo - apesar de a Grow sempre deixar explícito o aviso não-se-iluda de que a imagem era "meramente ilustrativa". Mas eu queria fazer igual: tão colorida, tão detalhada, tão perfeita quanto. Olhava todas aquelas peças e já visualizava o quadro lindo que eu me orgulharia em montar (tolinho...). No final nunca era igual à imagem "meramente ilustrativa" da capa. Os traços das peças ficavam evidentes ou a cor não era tão viva. Grande drama com direito a esperneios de filho caçula era quando faltava uma peça, afinal, nada mais frustrante do que um quebra-cabeça de 2.999 peças, certo?
(Pior era quando eu, no meu desespero ingênuo tentava juntar peças que não se encaixavam, principalmente quando se tratava de límpidos e homogêneos céus azuis!)
Aos poucos, a gente vai aprendendo que cada quebra-cabeça é o que é e como é. Às vezes têm encaixes imperfeitos, outros não ficam do nosso jeito e em alguns, incompreensivelmente, faltam peças, mas nem por isso são menos bonitos. Descobri, que o gostoso é descobrir cada pecinha que monta o todo, onde cada detalhe é imprescindível e coerente. E forçar encaixes que não servem, não serve de nada. O prazer é ver uma figura se formando aos poucos, nos cuidados dos dedos, com paciência e detalhe pela obra lentamente descoberta, explorada. No final, pode não ser tão colorida ou perfeita quanto esperava, mas têm a história nos seus talhes e o orgulho, além de terminar e pendurar emoldurada na parede, é lembrar do trabalho que deu para conhecê-la e tentar redescobri-la todo dia. Cada detalhe.
Aos poucos fui aprendendo que o título desse texto faz sentido.
JG
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